Educação

A escola pública precisa ir além do conteúdo: a importância da formação humana dos estudantes

A escola pública precisa ir além do conteúdo

Por Douglas Silvano — Professor de Educação Física—CREF nº 040024-G/SC

Acredito que a escola pública/educação precisa ser compreendida como um processo que ultrapassa a transmissão de conteúdos e a realização de avaliações escolares.

Ensinar matemática, português, ciências e outras disciplinas é fundamental, mas a escola também possui uma responsabilidade importante na formação humana dos estudantes.

Como professor de Educação Física, entendo que o ambiente escolar deve oferecer oportunidades para desenvolver autonomia, respeito, responsabilidade, cooperação e pensamento crítico.

Afinal, preparar crianças e adolescentes para o futuro significa ajudá-los a compreender não apenas o mundo em que vivem, mas também seu papel na sociedade.

A formação humana dos estudantes precisa fazer parte da educação pública

Quando discutimos a qualidade da educação brasileira, normalmente concentramos a atenção nos resultados das avaliações, nos índices de aprendizagem e no desempenho acadêmico.

Esses indicadores possuem grande relevância, mas considero que eles não representam, isoladamente, todas as dimensões envolvidas na formação de um estudante.

A escola é um dos principais ambientes de convivência social durante a infância e a adolescência.

É nesse espaço que os alunos estabelecem relações, entram em contato com diferentes perspectivas, aprendem a respeitar regras coletivas e enfrentam situações que exigem diálogo, responsabilidade e capacidade de tomar decisões.

A própria legislação educacional brasileira reconhece essa dimensão. O artigo 2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) estabelece que a educação tem como finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Na minha visão, essa definição demonstra que a formação humana dos estudantes não representa uma responsabilidade adicional ou secundária da escola.

Ela faz parte dos próprios objetivos da educação brasileira e precisa estar presente nas propostas pedagógicas, nas relações escolares e nas políticas públicas.

Por que aprender conteúdos não é suficiente para a formação de um cidadão?

O conhecimento acadêmico é indispensável para o desenvolvimento intelectual e para a ampliação das oportunidades sociais e profissionais.

Entretanto, dominar determinados conteúdos não significa, necessariamente, saber conviver com diferenças, agir com responsabilidade ou utilizar o conhecimento de maneira ética.

Um estudante pode apresentar excelente desempenho em avaliações e, ao mesmo tempo, encontrar dificuldades para trabalhar em equipe, lidar com opiniões contrárias ou reconhecer as consequências de suas atitudes.

Essas situações demonstram a importância de integrar os conhecimentos escolares ao desenvolvimento de habilidades relacionadas à convivência humana.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece competências gerais que incluem pensamento crítico, comunicação, empatia, cooperação, autoconhecimento, responsabilidade e cidadania.

O documento orienta os currículos brasileiros a considerar diferentes dimensões da aprendizagem, reconhecendo a importância da formação integral.

O conhecimento precisa fazer sentido na vida dos estudantes

Entendo que um dos desafios da escola é estabelecer relações entre aquilo que se aprende e as situações vivenciadas fora da sala de aula.

O estudante precisa compreender que os conhecimentos adquiridos possuem aplicações na sociedade e podem ajudá-lo a interpretar problemas, participar de decisões e desenvolver sua autonomia.

Isso não significa transformar todas as aulas em atividades práticas ou abandonar conteúdos teóricos. Pelo contrário, acredito que uma formação humana consistente depende de conhecimentos sólidos, associados a oportunidades de reflexão, investigação e aplicação.

A escola precisa ensinar o estudante a compreender informações, questionar argumentos, reconhecer evidências e construir opiniões fundamentadas. Essas capacidades são importantes não apenas para o desempenho escolar, mas também para o exercício consciente da cidadania.

O desenvolvimento socioemocional e a importância de aprender a conviver

A convivência escolar envolve situações que exigem respeito, paciência, cooperação e capacidade de lidar com diferenças.

Crianças e adolescentes estão em constante processo de desenvolvimento, e a escola pode contribuir para que compreendam suas emoções e estabeleçam relações sociais mais saudáveis.

Em outubro de 2024, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) publicou um guia sobre a integração da aprendizagem social e emocional aos sistemas educacionais. O documento reúne pesquisas e experiências internacionais que relacionam essas competências ao bem-estar, à convivência e às condições de aprendizagem.

Considero importante compreender que desenvolver habilidades socioemocionais não significa exigir que os estudantes estejam permanentemente tranquilos, felizes ou preparados para lidar sozinhos com todas as dificuldades.

O processo envolve reconhecer emoções, aprender estratégias de convivência e compreender que conflitos e frustrações fazem parte das relações humanas.

Empatia e respeito também podem ser ensinados

A empatia não deve ser tratada apenas como uma característica individual que alguns estudantes possuem e outros não.

Situações pedagógicas que envolvem diálogo, trabalho coletivo, análise de diferentes perspectivas e resolução de conflitos podem contribuir para desenvolver atitudes de respeito e compreensão.

Entretanto, acredito que esse trabalho precisa acontecer de maneira contínua. Não basta promover uma palestra sobre convivência e esperar que todos os problemas sejam resolvidos. Os valores trabalhados nas atividades escolares precisam estar presentes nas relações cotidianas entre estudantes, professores, gestores e demais profissionais.

A escola como espaço de inclusão e respeito às diferenças

A formação humana dos estudantes também depende da maneira como a instituição escolar lida com a diversidade. Cada criança ou adolescente possui uma história, uma realidade familiar, características individuais e diferentes necessidades educacionais.

Uma escola comprometida com a inclusão precisa reconhecer essas diferenças sem transformar determinadas características em motivos de exclusão. Isso envolve acessibilidade, práticas pedagógicas adequadas, combate à discriminação e construção de ambientes nos quais todos tenham oportunidades de participar das atividades.

A legislação brasileira estabelece responsabilidades importantes nesse sentido. A Lei nº 13.185/2015, que instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, prevê medidas de prevenção e enfrentamento ao bullying, incluindo conscientização, orientação e promoção do respeito nas relações sociais.

Na minha avaliação, combater situações de discriminação e intimidação precisa ser uma responsabilidade compartilhada pela comunidade escolar. Professores não podem ser deixados sozinhos diante de problemas complexos que exigem apoio da gestão, participação das famílias e, em determinadas situações, atuação de profissionais especializados.

O sentimento de pertencimento também influencia a aprendizagem

Quando um estudante percebe que sua participação é respeitada e que suas necessidades são consideradas, existem condições mais favoráveis para seu envolvimento nas atividades educacionais.

Sentir-se parte da comunidade escolar pode contribuir para a construção de vínculos e para a participação no processo de aprendizagem.

Isso não significa que todas as dificuldades escolares estejam relacionadas ao ambiente de convivência. Problemas pedagógicos, sociais e individuais também precisam ser analisados. Entretanto, considero que o acolhimento e a inclusão devem integrar qualquer proposta comprometida com a qualidade educacional.

Autonomia e pensamento crítico: preparar estudantes para tomar decisões

A formação humana envolve desenvolver a capacidade de pensar, analisar situações e assumir responsabilidades. Acredito que a escola precisa oferecer oportunidades para que os estudantes compreendam as consequências de suas escolhas e participem gradualmente de decisões adequadas à sua idade e ao seu desenvolvimento.

Aprender a argumentar, ouvir opiniões contrárias, interpretar informações e reconhecer diferentes pontos de vista são habilidades necessárias em uma sociedade marcada pela circulação constante de conteúdos e pela presença crescente das tecnologias digitais.

Por esse motivo, considero importante que as atividades pedagógicas estimulem perguntas, debates, pesquisas e situações em que os estudantes possam construir argumentos fundamentados.

O pensamento crítico não consiste simplesmente em discordar, mas em analisar informações de maneira responsável e reconhecer a importância das evidências.

O protagonismo estudantil precisa ser acompanhado de orientação

Oferecer espaço para a participação dos alunos não significa transferir a eles responsabilidades que pertencem aos adultos ou às instituições.

A autonomia precisa ser construída progressivamente, com acompanhamento pedagógico e limites adequados.

Projetos interdisciplinares, grêmios estudantis, debates orientados e atividades coletivas podem proporcionar experiências relevantes de participação.

Nessas situações, os estudantes têm a oportunidade de compreender que suas opiniões possuem importância, mas também precisam considerar os direitos e as necessidades das outras pessoas.

O professor possui um papel essencial na construção da formação humana

Não acredito que seja possível desenvolver uma educação voltada à formação integral sem reconhecer a importância dos professores.

São esses profissionais que organizam experiências de aprendizagem, acompanham o desenvolvimento dos estudantes e participam diariamente das relações construídas no ambiente escolar.

O trabalho docente envolve conhecimentos específicos, planejamento, avaliação e escolhas pedagógicas. Também exige sensibilidade para reconhecer diferentes necessidades, mediar situações de convivência e estabelecer relações profissionais baseadas no respeito.

Entretanto, considero equivocado imaginar que o professor deva assumir sozinho todas as responsabilidades relacionadas ao desenvolvimento emocional e social dos estudantes. A escola precisa contar com gestão organizada, apoio institucional, articulação com outros serviços e condições adequadas de trabalho.

Valorizar os professores também significa oferecer condições para educar

A valorização docente precisa envolver remuneração adequada, formação continuada, tempo para planejamento, recursos pedagógicos e respeito à autonomia profissional.

Essas condições são relevantes tanto para o ensino dos conteúdos curriculares quanto para o desenvolvimento de atividades voltadas à convivência e à formação humana.

Na minha visão, políticas educacionais que ampliam as responsabilidades dos professores sem oferecer suporte correspondente podem comprometer a efetividade das propostas. A formação integral exige planejamento coletivo e participação de diferentes profissionais, e não apenas o esforço individual de quem está em sala de aula.

Educação Física e esporte: experiências que contribuem para a formação humana

Como professor de Educação Física, considero que as práticas corporais representam oportunidades importantes para trabalhar diferentes dimensões do desenvolvimento dos estudantes. Jogos, brincadeiras, danças, lutas, ginásticas e modalidades esportivas permitem experiências que envolvem movimento, conhecimentos culturais, expressão e convivência.

Durante uma atividade coletiva, os participantes precisam compreender regras, comunicar-se, tomar decisões e reconhecer a presença de outras pessoas. Essas situações podem ser utilizadas pedagogicamente para estimular o respeito, a cooperação e a responsabilidade.

O voleibol, por exemplo, apresenta características interessantes nesse contexto. Por ser uma modalidade coletiva que exige participação coordenada entre os integrantes da equipe, oferece oportunidades para discutir comunicação, colaboração e responsabilidade compartilhada.

Vivencio a relação entre esporte e formação educacional também por meio da Associação de Voleibol Sul Catarinense (AVOSUL), entidade da qual sou fundador e presidente.

A experiência com o desenvolvimento de atividades esportivas reforça minha compreensão de que o voleibol pode oferecer oportunidades de aprendizagem que ultrapassam os fundamentos técnicos da modalidade, especialmente quando existe preocupação com a participação, o respeito e o desenvolvimento dos envolvidos.

O esporte precisa ter objetivos pedagógicos definidos

Entretanto, acredito que não podemos atribuir automaticamente ao esporte a capacidade de desenvolver valores ou transformar comportamentos.

Uma atividade competitiva também pode apresentar situações de exclusão, conflitos e desrespeito quando não existe orientação adequada.

Por isso, o papel do profissional de Educação Física é fundamental. Cabe ao planejamento pedagógico criar situações que favoreçam a aprendizagem, garantir oportunidades de participação e estimular reflexões sobre as experiências vivenciadas.

O esporte precisa ser compreendido como uma possibilidade educacional, e não apenas como uma atividade destinada à busca por resultados competitivos. Quando desenvolvido de maneira inclusiva e planejada, pode integrar uma proposta mais ampla de formação humana.

Família, comunidade e escola precisam compartilhar responsabilidades

A formação de crianças e adolescentes não acontece exclusivamente dentro das instituições de ensino. Família, comunidade e diferentes espaços de convivência também influenciam o desenvolvimento de hábitos, valores e comportamentos.

Acredito que a relação entre escola e família precisa ser construída por meio do diálogo e do reconhecimento das responsabilidades de cada parte.

A participação dos responsáveis pode contribuir para o acompanhamento da aprendizagem, para a compreensão de dificuldades e para o fortalecimento dos vínculos educacionais.

Entretanto, considero necessário reconhecer que as famílias possuem realidades diferentes. Jornadas de trabalho, dificuldades financeiras, questões de saúde e outras circunstâncias podem limitar a participação em determinadas atividades escolares. A ausência em reuniões, isoladamente, não deve ser interpretada como falta de interesse pela educação dos filhos.

Projetos comunitários podem ampliar as experiências educacionais

Iniciativas culturais, esportivas, científicas e sociais podem complementar as experiências vivenciadas na escola.

Quando desenvolvidos de maneira responsável, esses projetos ampliam oportunidades de participação e contato com diferentes formas de conhecimento.

Na minha avaliação, o diálogo entre instituições de ensino, associações comunitárias e organizações sociais pode contribuir para a criação de atividades complementares. Entretanto, essas parcerias precisam possuir objetivos claros, acompanhamento adequado e respeito às responsabilidades de cada instituição.

Políticas públicas precisam reconhecer todas as dimensões da aprendizagem

A formação humana dos estudantes não deve depender exclusivamente da iniciativa individual de professores ou gestores.

Para que faça parte da realidade escolar, precisa estar contemplada no planejamento educacional, nos currículos e nas condições oferecidas pelas redes de ensino.

O Ministério da Educação possui iniciativas voltadas à ampliação da educação integral. O Programa Escola em Tempo Integral, por exemplo, contempla objetivos relacionados à ampliação das oportunidades educacionais e ao desenvolvimento integral de crianças e adolescentes.

Considero importante, porém, diferenciar educação integral de uma simples ampliação da jornada escolar. Permanecer mais horas na instituição não garante, por si só, experiências educacionais diversificadas ou melhores resultados de aprendizagem.

Uma proposta de formação integral precisa considerar currículo, infraestrutura, alimentação, profissionais qualificados, atividades culturais, esportivas e acompanhamento pedagógico. Também deve respeitar as necessidades e características dos estudantes atendidos.

Planejamento e avaliação são fundamentais

Na minha visão, políticas públicas voltadas à formação humana precisam estabelecer objetivos que possam ser acompanhados. Isso inclui observar a participação dos estudantes, as condições de convivência, a inclusão e a qualidade das experiências pedagógicas oferecidas.

Nem todas essas dimensões podem ser representadas adequadamente por uma única nota ou indicador. Por isso, considero importante combinar informações quantitativas com avaliações qualitativas, escuta da comunidade escolar e acompanhamento das práticas desenvolvidas.

A escola que desejamos precisa ensinar conhecimentos e formar pessoas

Acredito que o debate sobre o futuro da escola pública precisa superar a falsa oposição entre ensinar conteúdos e desenvolver habilidades humanas. Essas duas dimensões não competem entre si. Pelo contrário, podem contribuir conjuntamente para uma educação mais completa e significativa.

O estudante precisa aprender a ler, escrever, interpretar informações, compreender conceitos científicos e desenvolver raciocínio lógico.

Ao mesmo tempo, necessita de oportunidades para conviver com diferenças, compreender responsabilidades, participar de decisões e reconhecer a importância do respeito nas relações humanas.

Essa formação exige professores preparados, propostas pedagógicas consistentes, condições adequadas de trabalho e políticas públicas capazes de reconhecer a complexidade do processo educativo.

Também exige compreender que a escola não consegue resolver todos os problemas sociais. Sua atuação precisa estar articulada à participação das famílias, à comunidade e aos serviços públicos responsáveis pela proteção e pelo desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Como professor, entendo que a educação possui um significado que ultrapassa os resultados obtidos ao final de um ano letivo.

Os conhecimentos construídos na escola acompanham os estudantes em diferentes momentos da vida, assim como as experiências de convivência, participação e responsabilidade que fazem parte de sua trajetória.

Uma escola pública de qualidade precisa garantir o direito de aprender, mas também oferecer condições para que cada estudante desenvolva suas capacidades humanas e sociais. Esse compromisso não diminui a importância dos conteúdos escolares; ao contrário, amplia o significado da aprendizagem.

Para mim, a educação cumpre uma de suas funções mais importantes quando contribui para formar pessoas capazes de compreender o mundo, respeitar os outros e participar conscientemente da sociedade.

É essa compreensão que deve orientar o debate sobre o papel da escola pública e sobre as oportunidades que desejamos oferecer às novas gerações.

Artigo de opinião — Douglas Silvano — CREF nº 040024-G/SC

Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte.

Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/homem-de-jaqueta-preta-segurando-um-i-pad-prateado-5212653/

Douglas Silvano

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Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte!

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